jul 29, 2021

Digitalização de processos, no entanto, ainda enfrenta obstáculos para se estabelecer plenamente

RIO –  A velha receita médica de papel, de via única e, muitas vezes, letra ininteligível, abriu espaço para uma versão mais moderna no último ano. A prescrição digital foi uma das mudanças aceleradas pela vida remota imposta pela pandemia. Desdobramento natural das consultas por vídeo, a digitalização da papelada de saúde deve seguir firme em tempos pós-pandêmicos, prevêem especialistas.

Por aqui, a tendência só fez crescer desde março de 2020, quando o Ministério da Saúde regulamentou o exercício da telemedicina através da Portaria nº 467. Antes da Covid-19, apenas 22% dos médicos brasileiros possuíam o certificado digital emitido pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil), necessário para prescrever medicamentos ou conceder atestados pela internet. Hoje, o número saltou para 57%. São 552 mil profissionais cadastrados.

Mensalmente, 60 mil documentos são emitidos apenas pela plataforma gratuita fornecida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Além dos softwares privados disponíveis no mercado, alguns conselhos regionais também oferecem sistemas para receituários digitais.

Médicos garantem que a digitalização do processo trouxe algumas vantagens óbvias para os envolvidos, mas alguns obstáculos ainda persistem. A pediatra e neonatologista Laura Maria Gonzaga Valentini, que atua na rede pública e privada do Rio, foi mais uma a ter migrado para o sistema digital.

— Tenho utilizado a ferramenta fornecida pelo CRM para emitir receitas e pedidos de exame — conta a médica, que trabalha em UTIs com recém-nascidos e também dá expediente em um posto de saúde – Nesta época de Covid-19, foram muitos pedidos de PCR feitos por lá. Achei interessante que esse sistema tenha sido oferecido gratuitamente.

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‘Letra de médico’

Uma das principais vantagens oferecidas pela nova maneira de prescrever é o fim da temida “letra de médico”. Muitas vezes, a caligrafia dos profissionais nas receitas manuscritas confunde pacientes e farmacêuticos e pode resultar em trocas de medicamentos, prejudicando os tratamentos. Com a receita digital, esse problema foi sumariamente resolvido: os nomes dos remédios e o número de doses são grafados de forma clara e podem ser lidos por qualquer um com o documento.

Por fim, a digitalização também traz a diminuição na papelada, agilizando processos e evitando burocracia. No entanto, algumas farmácias e outras empresas ainda se mostram resistentes ao novo modelo. Laís Santana Barbosa, médica de família e comunidade em São Paulo, conta que atestados digitais emitidos por ela já foram rejeitados:

— Em termos de segurança, é muito melhor, embora ache que pouca gente sabe de fato como usar esses recursos. É novo para todo mundo. Enviei um atestado para um paciente e a empresa exigiu meu nome e carimbo. Expliquei que os dados eram validados por um QR Code, mas não adiantou. Precisei fazer à mão.

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Padrões em disputa

Para evitar problemas como esse, a Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados recebeu, em uma audiência pública no mês de maio, representantes de farmácias e médicos para debater o uso da certificação digital nas receitas. Enquanto o CFM é a favor dos protocolos do ICP-Brasil, a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) defende que os certificados digitais atuais sejam trocados por técnicas mais modernas de autenticação.

Mesmo ainda sem consenso, médicos garantem que o processo de digitalização já parece irreversível:

— Com a pandemia, ficou claro que existe muita demanda para essas soluções digitais na medicina — avalia a médica Laura Maria Gonzaga Valentini. — Claro que o presencial é insubstituível, mas acredito que esse é um campo que só vai crescer daqui para a frente.

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/mais-de-500-mil-medicos-brasileiros-ja-adotaram-sistema-para-prescricao-remota-2-25050798

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